Filme da Bruna Surfistinha e a total inversão de valores

bruna-surfistinha-foto Num país de misérias e sérios problemas de desigualdade social, encontrar histórias de sofrimento e exploração é quase lugar comum. Mas o  mais incrível é nossa capacidade (da mídia especialmente) em inverter valores e transformar vilões em heróis. Agora temos a história de uma ex-prostituta de luxo, para ser contada nos cinemas e merecendo até reportagem no Fantástico da Rede Globo.

Quem não viu, no domingo dia 15 de novembro (2009), o Fantástico noticiou a gravação do filme que vai contar a “bela” história da Raquel Pacheco – conhecida como Bruna Surfistinha – que também foi dependente química.

Resumindo: fugiu de casa aos 17 anos, prostituiu-se nas ruas até virar garota de programa de luxo; casou-se, por fim, com um advogado rico, mora num apartamento de luxo; escreveu um livro sobre suas aventuras sexuais – que antes havia publicado em seu blog.

Para ver a reportagem com o vídeo: Déborah Secco interpreta Bruna Surfistinha no cinema.

Todos temos o direito de seguir o caminho que queremos, mas contar uma história da vida de uma garota que viveu tudo errado, como um conto de fadas moderno, isso não me parece uma boa coisa.

Não vi o filme e não conheço o roteiro, mas posso adivinhar. Vão dizer que ela sofria em casa e resolveu fugir. Na vida dura das ruas acabou sendo levada à prostituir-se (contra sua vontade #ironia) e vai nos parecer alguém sofrido para termos dó – quase como “Dois filhos de Francisco” #maisironia – e vamos acreditar que tudo o que ela sofreu vai nos dar uma lição de como a vida pode ser injusta.

Dia a atriz, Débora Secco, sobre sua personagem:

“A Bruna é um personagem muito rico, porque tudo o que ela é por fora é diferente do que ela é por dentro.”

Em outras palavras: se ele é uma coisa por fora e outra por dentro, então a Débora está interpretando uma pessoa falsa, uma mentira. É esse o tipo de história que vão contar?

Como as adolescentes de hoje interpretarão a história: [modo adolescente ligado] Ah! Então ela sofreu alguns anos, mas depois transava só com caras ricos e bonitos. Vendia seu corpo, como qualquer mulher faz hoje na TV (vide as mulheres frutas do funk). Por fim achou um homem rico, advogado, que quis casar com ela e tirá-la dessa vida (isso já foi contado no “Uma linda mulher” e todas querem o mesmo). Ok! Vou fazer o mesmo [modo adolescente desligado].

Não estou defendendo uma sociedade puritana, aos moldes de uma revolução cristã (ou teocrática de burcas), mas um mínimo de consciência temos que ter. Mas de que adiante ser contra? O que vale mesmo é saber que um filme desse vai render bilheteria, vender milhões. E o que vale mesmo é ganhar dinheiro.

Obs.: Gosto de mulher, mas não que seja vulgarizada e prostituída.

2 comments

  • NEIDE S EGITO

    Ser Mulher é ser 'Sagrada'. Este filme simplesmente materializa a Mulher, tirando-nos a nossa condição de um ser Especial..

    Neide

  • Cidinha

    ADOREI O QUE VOCÊ ESCREVEU!!!
    MUITAS VEZES PENSO QUE ESTOU SOZINHA COM A MINHA VISÃO, MINHA MANEIRA DE ANALISAR CERTOS FATOS, MAS, AÍ DESCUBRO QUE EXISTEM PESSOAS COM POSICIONAMENTOS FIRMES COMO OS MEUS.
    VALEU!!! PARABÉNS!

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