Transubstanciação somente do Pão?

[Comentário sobre a transubstanciação da Eucaristia, na vida da comunidade, da pessoa e do mundo à nossa volta. Estudo baseado no texto do então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).]

Sacramento das transformações.

Já comentei aqui em outros artigos sobre a Eucaristia (ver menu ao lado) sobre um texto do Papa Bento XVI antes de ser eleito. Um texto bem pastoral e contagiante nas palavras de devoção e amor que ele tem por Jesus presente na Eucaristia.

Segue um trexo de um comentário que fiz sobre parte dessa intervenção do Cardeal Ratzinger num congresso eucarístico na Itália em 2002. Para ler a intervenção na íntegra, clique no link: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20020602_ratzinger-eucharistic-congress_po.html

Estamos na ultima parte do texto. Muito conciso, mas profundo em teologia e espiritualidade, introduz-nos numa percepção da grande transformação que opera em nós o celebrar e receber o Pão e o Vinho. Chama aqui a Eucaristia de “Sacramento das transformações”.

Muitas palavras das formulações teológicas de séculos perderam seu verdadeiro sentido e profundidade, não pela evolução da teologia ou de outras ciências, mas por terem caído em desuso ou por simplesmente não oferecerem mais significado claro. A grande maioria do povo nunca lançou mão de tais para explicar sua fé. Isso também aconteceu com a palavra “transubstanciação”. Mesmo os teólogos evitam seu uso e uma leitura mais superficial e descuidada pode nos levar a entendimentos equivocados. Mesmo assim, neste texto, o Cardeal Joseph Ratzinger usa-a de forma magistral. Dá a ela todo o significado de transformação que a eucaristia proporciona, indo além do Pão e do Vinho eucaristizados. Como um místico cristão dos primeiros séculos faria, dando conteúdo espiritual para as formulações teológicas.

Lendo o Cânone Romano da liturgia eucarística no momento da consagração das espécies, afirma que “O pão torna-se corpo, o seu corpo. O pão da terra torna-se o pão de Deus, o ‘maná’ do céu, com o qual Deus alimenta os homens não só na vida terrena, mas também na perspectiva da ressurreição”, ressurreição essa que já começa a acontecer naquele instante. Relembra também dois textos importantes do evangelho, onde Jesus é tentado a transformar pedras em pão (Mt 4,3-4 e Lc 4.3-4) para matar sua fome, e ainda, sendo provocado, lembra que Deus pode fazer das pedras surgir filhos de Abraão, mas prefere “transformar o pão no corpo, no seu corpo”. Jesus pode dar seu corpo como alimento no pão e no vinho, pois prefigura sua entrega definitiva na cruz. “Ele pode tornar-se dom, porque é oferecido. Através do ato da doação ele torna-se capaz de comunicação”.
Começa aqui a relatar as transformações, num total de cinco delas, onde, na última ceia acontecerão três delas num único ato que gera outras duas transformações. A transformação originante, que está antecipada na ultima ceia, é o que Jesus faz com a violência sofrida, onde ele mesmo “põe fim à violência, transformando-a em amor. O ato de morte é transformado em amor. Esta é a transformação fundamental, sobre a qual tudo se baseia”. Por esta transformação é que o mundo pode ser redimido, onde o Cristo vence todo tipo de morte, vence tudo o que gera morte – “a própria morte foi transformada”. “E assim, na transformação da ressurreição Cristo continua a subsistir, mas agora de tal forma transformado, que seu corpo e o dar-se já não se excluem, mas um implica o outro”. Agora, ao recebermos Jesus, o recebemos por inteiro, não só espiritualmente, mas na sua totalidade, também em seu corpo.

Somado a isso temos a segunda transformação, dependente total da primeira e nela contida. “O corpo mortal [de Jesus] é transformado no corpo da ressurreição: no espírito que dá vida”. Isto também é antecipado na ceia, onde num mesmo momento Jesus morre na cruz e se é ressuscitado. Toda esta transformação é vivida na ceia e na entrega de Jesus. Daqui passamos para a terceira transformação que diz respeito ao Pão e o Vinho. Neles será contida toda a transformação e ação do Cristo Jesus. Estes são transformados de tal maneira que “está presente o próprio Senhor que se dá, a sua oferenda, ele mesmo porque ele é dom. O ato da doação não é algo dele, mas é ele próprio”. Pão e Vinho são transformados na presença do próprio Senhor.
Chega-se às duas ultimas transformações provenientes do que acabamos de ver. Jesus se faz presente no Pão e no Vinho com uma finalidade clara que é transformar o homem num só corpo com ele:

“Para que nos tornemos um só pão com ele e depois um só corpo com ele. A
transformação dos dons, que é unicamente a continuidade das transformações
fundamentais da cruz e da ressurreição, não é o ponto final, mas, por sua vez,
só um início. O fim da Eucaristia é a transformação de quantos a recebem na
autêntica comunhão com a sua transformação”.

E assim, “nos tornamos com Cristo e em Cristo um organismo de doação, a fim de vivermos com vista à ressurreição e ao novo mundo”. Este é o passo a ser dado para a quinta e ultima transformação. Toda a criação é participante deste evento em nós e por nós homens. A Criação também é transformada para tornar-se “habitação viva de Deus”.

Por estes passos aprofundamos no sentido da real transubstanciação que vai muito além da discussão do que acontece com as espécies eucarísticas. A totalidade da presença de Jesus não pode ser contida ou limitada pelo pão e pelo vinho, mas deve transbordar em nós que o recebemos e dele nos alimentamos. Pois não basta fazer-se presente sob o véu da aparência de pão e vinho se não promover transformações definitivas em nós homens. É preciso ir e comer, receber e beber de seu corpo, provar da transformação.
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22. Eucaristia e suas fontes Bíblicas – Evangelho de João (2/2)

[ Continuação do comentário bíblico para estudo e reflexão do Sacramento da Eucaristia ]

João 6 – Parte 2

Muitas vezes Jesus falava em figuras. Falava sim.Mas existem outros momentos que Jesus falou concretamente. Como saber o que é figura ou o que é concreto? Cabe aqui uma chave de leitura interessante e simples.

Veja: Todas as vezes que Jesus falou em linguagem figurativa, contou antes uma parábola ou uma pequena história. Veja seus exemplos:
– Eu sou a porta: Jo 10,1-10 = Há aí uma parábola onde Jesus se compara à porta que protege as ovelhas e garante o caminho correto.
– Eu sou o Caminho: Jo 14,1-14 = Não há parábolas ou história. Aqui Jesus é categórico. Ele é o caminho, pois não há outra maneira de se chegar ao Pai. Aqui devemos entender literalmente.
– Quem não nascer da água e do Espírito: Jo 3 = Mais uma vez não há parábolas nem história. E fala assim no vers. 7: “Não se espante se eu digo que é preciso vocês nascerem do alto”. Este trecho é a prefiguração do Sacramento do Batismo que nos devolve a condição de filhos de Deus.

Quando Jesus fala concretamente, causa espanto. Foi o mesmo em Jo 6,61: “Isso escandaliza vocês?”. Sabemos que é preciso nascer de novo. O batismo é quando passamos pela água, e o fogo é o Espírito Santo que nos torna espirituais.

Em Jo 6, Jesus não fala em parábolas. Está falando concretamente, não usa figuras de linguagem. E, exatamente pra evitar erros na interpretação de suas palavras, ele é bem firme e expressivo, enfático.

“O PÃO QUE EU DAREI É A MINHA CARNE”
“Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.”

A Estrutura narrativa
Proximidade com o Evangelho de Marcos:

__ JOÃO ______ __ MARCOS _____
– 6, 1-15 ………………. 6, 30-44 —> Multiplicação 5.000 Pessoas
– 6, 16-24 …………….. 6, 45-54 —> Caminhada sobre as águas
______________________________________________
– 6, 25-34 …………….. 8, 11-13 —> Pedido de um sinal
– 6, 35-58 …………….. 8, 14-21 —> Discurso sobre o Pão
– 6, 59-69 …………….. 8, 27-30 —> Fé de Pedro
– 6, 70-71 …………….. 8, 31-33 —> Tema da Paixão e da negação

Indicações Celebrativo-Eucarísticas na Multiplicação

Jo 6, 11 (v. 23): Dar graças / DistribuirOrdenação da Cena:
1) Tomou o Pão (ofertório);
2) Deu graças (consagração);
3) Partiu (cordeiro);
4) Deu aos seus (comunhão).

Somente no Evangelho de João:
a) Jesus Distribui ele mesmo os pães;
b) Jesus manda recolher para que nada se perdesse.

v. 12 –> klasma = pedaços
(termo usado na Didaqué para indicar a hóstia Eucarística [Did. 9, 3-4])

Divisão do Discurso:
1) Cristológico-sapiencial (v. 35-50);
2) Eucarístico-sacramental (51-58).

(1) Discurso Sapiencial:
O povo faz 3 perguntas a Jesus. Só acertam na terceira:
I) v. 25 = [fim da seção narrativa] perguntam “Quando?”, mas deveriam ter perguntado “Como?”;
II) v. 28 = [início do debate] “Que Faremos?”, mas deveriam perguntar “Como conseguir esse alimento?”;
III) v. 34 = Agora sim fazem a pergunta certa: “Como conseguir…?”

(2) Discurso Sacramental:
Só fala de “Comer” a partir do v. 50.
Entre o v. 35-50 usa-se expressões como: “quem vem a mim…”, “quem crê…”, “quem vê…” (v. 35.36.40.47 / 35.37.44.45) – Estas são sinônimos de “receber”, “aceitar Jesus”.

“Dar a carne”, “Comer”, “o alimento”, “Beber”…

Indicações Eucarísticas:
a) “Comer a carne e beber o sangue de Jesus” – que não pode ser comparado com “receber, crer, aceitar Jesus”. Há uma mudança no uso das palavras e na forma do discurso.
b) v. 51 “O pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo”

Por fim:
v. 58 = Jesus é superior a Moisés, mais ainda, superior ao Maná do deserto.

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[ final da parte 2 de 2 ]

21. Eucaristia e suas fontes Bíblicas – Evangelho de João (1/2)

[ Este comentário Bíblico servirá de referência segura para um estudo mais aprofundado do tema do Sacramento da Eucaristia. Dividido em duas partes. ]

João 6 – Parte 1

Segue um pequeno esquema para um estudo do capítulo 6 do evangelho de João para um aprofundamento bíblico no tema do Sacramento da Eucaristia como alimento do Corpo e Sangue de Cristo Jesus e a sua presença real.

Este capítulo está dividido em três partes distintas, claras e também plenamente interligadas.

A primeira parte é a Multiplicação dos Pães (vers. 1-15):
No versículo 5 Jesus pergunta: “Onde arranjaremos pão pra eles comerem?”
A resposta está em Jesus mesmo. Ele faz do pão o que quer. Pão para saciar completamente a fome e ainda sobra (Vers. 12-13). Melhor do que o Maná que só caia o suficiente, nem mais nem menos, não faltava, mas também não sobrava para ser juntado, estocado (Ex 16).

Repetindo: JESUS FAZ DO PÃO O QUE QUER.

A segunda parte (vers. 16-21), Jesus caminha sobre as águas.
Ele não só controla a natureza, mas controla seu corpo. Caminha e chega antes do barco (v. 21). Faz de seu corpo o que quer. Por isso pode se entrega à morte, pois pode dar-se livremente e recobrá-la pra si, ressuscitando!

Repetindo: JESUS FAZ DO SEU CORPO O QUE QUER.

Então temos a maior parte, a terceira, deste capítulo (vers. 22-71).
Aqui será nosso foco principal deste estudo.

27 – “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, alimento que o filho do homem vos dará…”
A multidão pede um sinal maior que o Maná que foi dado no deserto durante os 40 anos rumo à Terra Prometida. Jesus responde:
32 – “É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.”
Quem desceu do céu para dar vida ao mundo, senão Jesus? Ele se dá o nome de Pão do Céu.
35 – “Eu sou o Pão da Vida”. 38 – “Pois desci do céu”.

Jesus se identifica com o pão e como pão (alimento)!
E diz isso por três vezes seguidas: 48 – “Eu sou o pão da Vida”. 50 – “Este pão é o que desce do céu para que não morra quem dele comer”. 51 – “Eu sou o pão vivo descido do céu”.

Essa identificação com o Pão do Maná (de forma histórica e que se repete de forma celebrativa também na páscoa judaica e na festa dos pães ázimos) vai sendo aprofundada. Jesus quer mostrar que Ele tem um Pão pra dar que não só mata a fome, mas garante a vida eterna.
Jesus faz do Maná do Êxodo uma prefiguração de si mesmo. O Maná descido do Céu é Jesus ali, Verbo de Deus encarnado que desceu do Céu se fazendo homem (vindo de Deus-Pai, igual o pão que caía no deserto) e que quer saciar a fome dos homens.

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Chegamos aos vers. 50-51.
Temos grandes mudanças no discurso de Jesus a partir desse ponto. Vale prestar muita atenção aos detalhes deste texto. Aqui temos uma mudança de foco no discurso de Jesus. Antes falava figurativamente de si comparando ao Maná do deserto.
Agora entra uma provocação: “51b – E o pão que eu vou dar é a minha própria carne.
A provocação está nesta palavra, “carne“. Esta aparece no texto aqui, pela primeira vez. Antes o Pão podia ser entendido como figura do Jesus encarnado, descido do Céu. Mas Jesus vai além: é preciso comer desse Pão que é a sua carne.

Assustados com tais palavras, seus ouvintes questionam (murmuravam como no deserto contra Moisés): 52b – “Como pode esse homem dar-nos a sua carne para comer?
Então Jesus vai além, nada de meias palavras ou figuras de linguagem, fala de forma clara e direta:
“O PÃO QUE EU DAREI É A MINHA CARNE”
E não para: 53 – “Se não comerdes a carne do filho do Homem e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós”. Vale a pena ler o 54 também.

Fica mais evidente que Jesus abandonou a linguagem simbólica quando lemos o versículo 55 – “Pois a minha carne É verdadeira comida e o meu sangue É verdadeira bebida.”

Se lermos os relatos da Ultima Ceia de Jesus com os discípulos agora, muita coisa fica mais clara na atitude dele em querer deixar esta forma celebrativa para a sua Igreja.

“Com todo o ato da ceia Jesus se entrega às mãos dos discípulos, e isso no sentido duplo de doar-se e entregar-se. O pão que Jesus distribui no início da ceia, a exemplo de todo chefe de família judeu, e o cálice que oferece são, por assim dizer, sinal no sinal, símbolos reais concentrados da auto-doação e da auto-entrega: ‘Tomai, isto é meu corpo (…) Isto é meu sangue’ (Mc 14, 22.24 e par.). ‘Corpo’ e ‘sangue’ não significam elementos, e, sim, todo o ser humano vivente, sendo que ‘corpo’ lembra especialmente o eu concreto, e ‘sangue’, sobretudo a vida, ‘o sangue derramado’, porém, a entrega da vida.” (SCHNEIDER, Theodor (org.). “Manual de Dogmática. Editora Vozes. P. 246.)

57 – “Aquele que de mim se alimenta viverá por mim.”

Aí Jesus percebe que muitos ficam espantados e os questiona:
61 – “ISTO VOS ESCANDALIZA? E quando virdes o filho do Homem subir aonde estava antes?…”
Ficou complicado seguir Jesus…

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[Continua… Parte 1 de 2 ]

19. Eucaristia, Comunhão e Solidariedade – Parte 3/3

[Esta é a ultima parte do comentário sobre o discurso do então Cardeal Joseph Ratzinger, no congresso eucarístico de Benevento (Itália) em 2002.]

3 – Solidariedade:

O que dizer agora da palavra “solidariedade”? Esta não tem origem na tradição cristã nem na bíblia, diferente das duas anteriores. Esta é uma palavra que nos remete a conceitos criados para contrapor-se “à idéia de amor cristão, como a nova, racional e eficaz resposta ao problema social”. Este conceito surge para justificar as buscas do socialismo nascente e assume a missão de garantir a igualdade de todos. Mas esta é uma teoria frustrada desde o início por desconsiderar Deus. “Sem Deus as coisas não podem correr bem”. Mas este foi um conceito cristianizado, assumindo um caráter de responsabilidade, de manifestação do amor fraterno. “Precisamos da fé em Jesus Cristo, porque ela une razão e religião” e a fé torna-se o critério que modelará nossa responsabilidade social.

Temos agora a ultima parte do texto. Muito conciso, mas profundo em teologia e espiritualidade, introduz-nos numa percepção da grande transformação que opera em nós o celebrar e receber o Pão e o Vinho. Chama aqui a Eucaristia de “Sacramento das transformações”.
Muitas palavras das formulações teológicas de séculos perderam seu verdadeiro sentido e profundidade, não pela evolução da teologia ou de outras ciências, mas por terem caído em desuso ou por simplesmente não oferecerem mais significado claro. A grande maioria do povo nunca lançou mão de tais para explicar sua fé. Isso também aconteceu com a palavra “transubstanciação”. Mesmo os teólogos evitam seu uso e uma leitura mais superficial e descuidada pode nos levar a entendimentos equivocados. Mesmo assim, neste texto, o Cardeal Joseph Ratzinger usa-a de forma magistral. Dá a ela todo o significado de transformação que a eucaristia proporciona, indo além do Pão e do Vinho eucaristizados. Como um místico cristão dos primeiros séculos faria, dando conteúdo espiritual para as formulações teológicas.
Lendo o Cânone Romano da liturgia eucarística no momento da consagração das espécies, afirma que “O pão torna-se corpo, o seu corpo. O pão da terra torna-se o pão de Deus, o ‘maná’ do céu, com o qual Deus alimenta os homens não só na vida terrena, mas também na perspectiva da ressurreição”, ressurreição essa que já começa a acontecer naquele instante. Relembra também dois textos importantes do evangelho, onde Jesus é tentado a transformar pedras em pão (Mt 4,3-4 e Lc 4.3-4) para matar sua fome, e ainda, sendo provocado, lembra que Deus pode fazer das pedras surgir filhos de Abraão, mas prefere “transformar o pão no corpo, no seu corpo”. Jesus pode dar seu corpo como alimento no pão e no vinho, pois prefigura sua entrega definitiva na cruz. “Ele pode tornar-se dom, porque é oferecido. Através do ato da doação ele torna-se capaz de comunicação”.
Começa aqui a relatar as transformações, num total de cinco delas, onde, na última ceia acontecerão três delas num único ato que gera outras duas transformações. A transformação originante, que está antecipada na ultima ceia, é o que Jesus faz com a violência sofrida, onde ele mesmo “põe fim à violência, transformando-a em amor. O ato de morte é transformado em amor. Esta é a transformação fundamental, sobre a qual tudo se baseia”. Por esta transformação é que o mundo pode ser redimido, onde o Cristo vence todo tipo de morte, vence tudo o que gera morte – “a própria morte foi transformada”. “E assim, na transformação da ressurreição Cristo continua a subsistir, mas agora de tal forma transformado, que seu corpo e o dar-se já não se excluem, mas um implica o outro”. Agora, ao recebermos Jesus, o recebemos por inteiro, não só espiritualmente, mas na sua totalidade, também em seu corpo.
Somado a isso temos a segunda transformação, dependente total da primeira e nela contida. “O corpo mortal [de Jesus] é transformado no corpo da ressurreição: no espírito que dá vida”. Isto também é antecipado na ceia, onde num mesmo momento Jesus morre na cruz e se é ressuscitado. Toda esta transformação é vivida na ceia e na entrega de Jesus. Daqui passamos para a terceira transformação que diz respeito ao Pão e o Vinho. Neles será contida toda a transformação e ação do Cristo Jesus. Estes são transformados de tal maneira que “está presente o próprio Senhor que se dá, a sua oferenda, ele mesmo porque ele é dom. O ato da doação não é algo dele, mas é ele próprio”. Pão e Vinho são transformados na presença do próprio Senhor.
Chega-se às duas ultimas transformações provenientes do que acabamos de ver. Jesus se faz presente no Pão e no Vinho com uma finalidade clara que é transformar o homem num só corpo com ele:
“Para que nos tornemos um só pão com ele e depois um só corpo com ele. A transformação dos dons, que é unicamente a continuidade das transformações fundamentais da cruz e da ressurreição, não é o ponto final, mas, por sua vez, só um início. O fim da Eucaristia é a transformação de quantos a recebem na autêntica comunhão com a sua transformação”.

E assim, “nos tornamos com Cristo e em Cristo um organismo de doação, a fim de vivermos com vista à ressurreição e ao novo mundo”. Este é o passo a ser dado para a quinta e ultima transformação. Toda a criação é participante deste evento em nós e por nós homens. A Criação também é transformada para tornar-se “habitação viva de Deus”.
Por estes passos aprofundamos no sentido da real transubstanciação que vai muito além da discussão do que acontece com as espécies eucarísticas. A totalidade da presença de Jesus não pode ser contida ou limitada pelo pão e pelo vinho, mas deve transbordar em nós que o recebemos e dele nos alimentamos. Pois não basta fazer-se presente sob o véu da aparência de pão e vinho se não promover transformações definitivas em nós homens. É preciso ir e comer, receber e beber de seu corpo, provar da transformação.

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[Fim da parte 3 de 3.]

18. Eucaristia, Comunhão e Solidariedade – Parte 2/3

[Continua o comentário do Discurso do então Cardeal Joseph Ratzinger, em um congresso eucarísitico em 2002]

2 – Comunhão:
Caminhando neste pequeno texto, chegamos à palavra “Comunhão”. Esta é uma palavra bastante usada atualmente e “é uma das palavras mais profundas e características da tradição cristã”. Por este motivo, nos chama a atenção nosso então cardeal, devemos entender seu significado em profundidade.

No decorrer de sua argumentação nesta parte do texto, Ratzinger, faz uma análise rápida sobre conceitos ao mesmo tempo interligados, mas distintos e que nos ajudam a entender a Igreja: “Ekklesia” (Igreja) e “Concilium”. A segunda poderia ser usada para explicar a estrutura da Igreja: “a Igreja seria o contínuo Concílio de Deus no mundo”, mas a Igreja “não existe antes de tudo para deliberar, mas para viver a palavra que nos é dada”. Cabe ao Concílio ser “a realização mais intensa em absoluto da Igreja, ou seja, o ponto máximo da Igreja”. É limitada, portanto, esta palavra para explicar a Igreja.
Conclui esse comentário assim: “A Igreja realiza Concílios, mas ela é Comunhão (…). A Sua estrutura não deve ser descrita com a palavra ‘conciliar’, mas antes com a palavra ‘comunhão’”. A Igreja deve ser descrita como Comunhão. A preocupação deste futuro papa com o entendimento correto das palavras que usamos para descrever a Igreja, nos faz entender sua grande atenção ao mistério Eucarístico. Começa então a relacionar o uso da palavra Comunhão com o mistério da Ceia. Lembra-nos que mesmo sendo usada para descrever a Igreja, aponta-nos “para o centro eucarístico (…) e, desta forma, fixa a compreensão da Igreja no lugar mais íntimo do encontro entre Jesus e os homens, no ato da sua entrega por nós”.
Discorrendo sobre 1Cor 10,16s, vamos reproduzir diretamente trechos do texto onde Joseph Ratzinger, explica-nos a palavra Comunhão como um conceito eucarístico:
“O conceito de comunhão está, em primeiro lugar, ancorado no Santíssimo Sacramento da Eucaristia (…). Aqui é-nos dito que através do sacramento nós entramos de certa forma em comunhão de sangue com Jesus Cristo, onde sangue, segundo a visão hebraica significa ‘vida’, e, por conseguinte, é afirmada uma compenetração da vida de Cristo com a nossa (…). São ainda mais impressionantes as palavras sobre o pão (cf. 1Cor 6,17s; Ef 5,26-32) (…). Paulo explica este conceito partindo de outro ponto de vista, quando diz: é um só e único pão, que todos nós aqui recebemos. Isto tem um sentido muito forte: o ‘pão’ o novo Maná, que Deus nos oferece é para todos o único e mesmo Cristo. É deveras o único, idêntico e mesmo Senhor que nós recebemos na eucaristia, ou melhor: que nos recebe e nos assume consigo”.

Reverte aqui a forma de percebermos nossa relação com o Cristo do Pão. Quando sempre pensamos que o estamos a receber, é ele quem nos acolhe em sua bondade divina. Não é como o pão cotidiano que só alimenta o corpo, “este pão é de outro gênero”.
“É maior e está acima de nós. Não somos nós que o assimilamos, mas é ele que nos assimila, fazendo com que nos conformemos com Cristo, de certa forma como diz Paulo tornando-nos membros do seu corpo, uma só coisa nele. Todos nós comemos da mesma pessoa, e não só da mesma coisa; desta forma, todos nós somos arrancados ao nosso individualismo fechado, para sermos inseridos noutro maior. Todos nós somos assimilados a Cristo e assim, através da comunhão com Cristo também estamos unidos entre nós (…)”.

Há aqui um grande dinamismo de relações que começa no Cristo. Este nos recebe em si, fazendo-nos parte de seu corpo glorioso, inserindo-nos no mistério de sua humanidade divina por uma corporeidade maior, numa relação que não pode ser limitada – somos transformados em um com Ele. Mas isto não é uma experiência individual. Ensina-nos, Ratzinger, que esta é uma relação ampla, que intensifica também as relações entre nós. “A Igreja não nasce como uma simples federação de comunidades. Ela nasce a partir do único pão, do único Senhor e é a partir d’Ele desde o início e em toda parte uma e única, o único corpo que deriva de um único pão”.

Para completar esse tema e seguindo essa linha de entendimento de “comunhão recíproca”, comenta a 1Jo 3-7. Especialmente lemos assim no v. 7: “Mas se caminhamos na luz / como ele está na luz, / estamos em comunhão uns com os outros”. Mantendo a mesma linha de pensamento encontrada em Paulo sobre a unidade do Corpo de Cristo e nossa participação nele, “a comunhão com Jesus torna-se comunhão com o próprio Deus, comunhão com a luz e com o amor; torna-se a vida reta, e tudo isto nos une uns aos outros na verdade. Se considerarmos a comunhão nesta profundidade e amplidão, então temos alguma coisa para dizer ao mundo.” Fica como uma provocação à nossa forma de viver exteriormente o cristianismo que professamos como fé, já que “quem reconhece o Senhor no Tabernáculo, também o reconhece nos que sofrem e nos necessitados”. A profundidade de nossas relações de comunhão determinam nosso engajamento, pois comunhão com Deus em Jesus Cristo não é algo que fica apenas no transcendente, como que insensível com a realidade concreta da humanidade toda, é preciso engajar-se.
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[Fim da parte 2 de 3. Continua…]

17. Eucaristia, Comunhão e Solidariedade – Parte 1/3

[Segue um pequeno comentário, em três partes, de uma intervenção do então Cardeal Joseph Ratzinger, num congresso eucarístico em 2002 na cidade de Benevento (Itália).]

Sua Santidade, o Papa Bento XVI, assumiu seu pontificado durante o ano dedicado à Eucaristia e em sua primeira mensagem na chamada Santa Missa pela Igreja Universal no dia 20 de Abril de 2005, deu-nos uma grande lição: “A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi oferecido.”


Chama a Eucaristia de “fonte” de seu serviço como Papa. De tudo aquilo que Deus nos deixou, agarra-se a este sacramento como forma de garantir que Cristo seja sempre o centro de nossa fé. Exatamente assim, nós que somos o povo de Deus, os membros da Igreja, que é Corpo de Cristo, devemos viver: buscando constantemente a Cristo na santa missa e na Comunhão, como nossa “fonte”.

Encontramos um texto anterior à sua eleição, ainda como Ratzinger, na Congregação para Doutrina da Fé, durante o pontificado de João Paulo II. É um texto bastante espontâneo e nos mostra a profundidade da espiritualidade eucarística desse homem que mais tarde assumiria a frente da Igreja para confirmá-la em Jesus (Lc 22,32b). Num Congresso Eucarístico em Benevento (Itália), no dia 2 de Junho de 2002, com o tema “Eucaristia, Comunhão e Solidariedade”, o então Cardeal Joseph Ratzinger fez uma profunda análise bem pastoral, percorrendo essas três palavras durante sua intervenção (para ler o discurso na íntegra, clique aqui).

Começa lembrando-nos que “quem está à parte da reta doutrina, mostra-se com um coração limitado, rígido, potencialmente intolerante”. Acrescenta: “a doutrina sozinha, se não se é vida e ação, torna-se conversa inútil e por isso também vazia. A verdade é concreta”. Por isso mesmo vamos adentrar na sã doutrina, para nos enchermos da verdade Divina e sermos capazes de justificar nossa fé.

1 – Eucaristia:
Com simplicidade divide seu texto em três partes, uma para cada palavra, a começar por “Eucaristia”, apontando seu uso e sua transformação especialmente entre os primeiros cristãos, lembrando que este é o nome mais comum para o Sacramento, mas tem um amplo uso na Igreja. Mas antes, este sacramento era chamado de “Ceia do Senhor”, conforme os relatos de São Paulo. Tinha o caráter de refeição e reunião para comer, pois herdou esta forma da festividade da Páscoa judaica. Logo, os primeiros cristãos, muitas vezes se reuniam para uma refeição, onde eram inseridos elementos do memorial de Jesus. A problemática surge quando percebe-se que esta relação com a festa judaica é apenas externa, já que Jesus não mandou que repetissem a ceia pascal judaica por inteiro. Esta era apenas a moldura, não era o Sacramento, visto que o Senhor nos deixou um novo dom. “Assim a Igreja, assumindo uma configuração específica própria, libertou progressivamente o dom específico do Senhor, o que era novo e permanente, do velho contexto e deu-lhe forma própria”. Vem então agregar valor ao dom deixado por Jesus à Liturgia da Palavra “que tem o seu modelo na sinagoga”.
“Compreende-se que o essencial no acontecimento da ultima ceia não era comer o cordeiro e os outros pratos tradicionais”. As palavras de Jesus passam a ser o centro; por elas ele se dá como oferta de si mesmo e rendemos graças por sua morte.
“Vários Padres designavam a Eucaristia simplesmente como ‘oratio’ (Oração), como ‘sacrifício da palavra’, como sacrifício espiritual, mas que também se torna matéria transformada: pão e vinho tornam-se corpo e sangue de Cristo, o novo alimento, que sustenta para a ressurreição, para a vida eterna. Assim, toda a estrutura de palavras e elementos materiais tornam-se antecipação da eterna boda de núpcias”.

Percebemos uma evolução no entendimento da Igreja sobre sua forma de celebrar tomando forma especificamente “naquilo que o Senhor deveras ‘instituiu’ naquela noite”. Portanto, “Eucaristia” é o nome por excelência do celebrar cristão, que faz não outra coisa senão “dar graças” ao Senhor por seus dons. Confirmando este entendimento lemos na Lineamenta do XI Sínodo dos Bispos, parágrafo 13:
“Da última Ceia, a Igreja passou à Eucaristia, nome que preferiu entre os restantes – Ceia do Senhor, Fração do pão, Santo Sacrifício e oblação, Assembléia eucarística, Santa Missa, Ceia mística, Santa e Divina Liturgia –, para indicar que ela é, sobretudo um dar graças (do grego eucharisteín).”

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[Fim da Parte 1 de 3. Continua…]

16. Sacramentos no Vaticano II

O Concílio Vaticano II fez um belo resumo dos sacrametos da Igreja no texto da Constituição Dogmática LUMEN GENTIUM – Sobre a Igreja.
Vale a pena citar aqui, então, o parágrafo 11 deste magnífico documento que, com palavras fortes e seguras nos dá a reta orientação do lugar sagrado dos sacramentos na vida de fé do cristão e da comunidade. Tais sacramentos são em vista da manifestação do Sacerdócio comum dos fieis.

“A índole sagrada e, orgânica da comunidade sacerdotal efectiva-se pelos sacramentos e pelas virtudes. Os fiéis, incorporados na Igreja pelo Baptismo, são destinados pelo carácter baptismal ao culto da religião cristã e, regenerados para filhos de Deus, devem confessar diante dos homens a fé que de Deus receberam por meio da Igreja. Pelo sacramento da Confirmação, são mais perfeitamente vinculados à Igreja, enriquecidos com uma força especial do Espírito Santo e deste modo ficam obrigados a difundir e defender a fé por palavras e obras como verdadeiras testemunhas de Cristo. Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na acção litúrgica. Além disso, alimentados pelo corpo de Cristo na Eucaristia, manifestam visivelmente a unidade do Povo de Deus, que neste augustíssimo sacramento é perfeitamente significada e admiravelmente realizada.

Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência, obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e ao mesmo tempo reconciliam-se com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversão. Pela santa Unção dos enfermos e pela oração dos presbíteros, toda a Igreja encomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado para que os salve (cfr. Tg. 5, 14-16); mais ainda, exorta-os a que, associando-se livremente à Paixão e morte de Cristo (cfr. Rom. 8,17; Col. 1,24; 2 Tim. 11,12; 1 Ped. 4,13), concorram para o bem do Povo de Deus. Por sua vez, aqueles de entre os fiéis que são assinalados com a sagrada Ordem, ficam constituídos em nome de Cristo para apascentar a Igreja com a palavra e graça de Deus. Finalmente, os cônjuges cristãos, em virtude do sacramento do Matrimónio, com que significam e. participam o mistério da unidade do amor fecundo entre Cristo e a Igreja (cfr. Ef. 5,32), auxiliam-se mutuamente para a santidade, pela vida conjugal e pela procriação e educação dos filhos, e têm assim, no seu estado de vida e na sua ordem, um dom próprio no Povo de Deus (cfr. 1 Cor. 7,7). Desta união origina-se a família, na qual nascem novos cidadãos da sociedade humana os quais, para perpetuar o Povo de Deus através dos tempos, se tornam filhos de Deus pela graça do Espírito Santo, no Baptismo. Na família, como numa igreja doméstica, devem os pais, pela palavra e pelo exemplo, ser para os filhos os primeiros arautos da fé e favorecer a vocação própria de cada um, especialmente a vocação sagrada.
Munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho.”


Em vermelho, assim quero destacar o valor da vocação à família, da busca pela santidade no matrimônio. Poderíamos até dizer que os padres conciliares definiram como a Família sendo o oitavo sacramento.
E sublinhado temos uma breve descrição para o sacramento da Eucaristia.

15. Sacramentos – Vida de Fé!

Segue um pequeno comentário teológico sobre os sete Sacramentos na Igreja Católica Apostólica Romana e suas fundamentações bíblicas.
Está dividido em três grupos: 1) Sacramentos da Iniciação; 2) Sacramentos da Cura; 3) Sacramentos da Comunhão.

I) Sacramentos da Iniciação.

1. Do Batismo.

Se a Igreja teve o cuidado de determinar quais são e quantos são os sacramentos, também determinou uma ordem, podemos dizer, de importância para cada um deles em relação uns com os outros. Isso se deve ao fato de que todos eles estão intimamente ligados, não só por sua origem e usos na comunidade de fé, mas principalmente porque alguns imprimem caráter definitivo e determinam a identidade cristã.
Para o primeiro sacramento da vida de um cristão, é explícito no Batismo, que este defina claramente isso que chamamos de identidade. Com tal sacramento é dado à pessoa um nome que a coloca em comunhão com Jesus Cristo e a Igreja. Por isso mesmo é o primeiro passo de inserção na comunidade e é onde ouve-se a confissão de fé daquele que se dispõe à Igreja no caminho da salvação.
Este é o sacramento que abre as portas, não só para a aceitação entre os irmãos na comunidade, mas também, e principalmente, para o recebimento dos demais sacramentos que só podem ser administrados àqueles que pertencem ao grupo e crêem como este. Chamamos o Batismo de “fundamento da vida cristã” e ao qual os demais são ordenados. Sua origem é clara nas palavras de Jesus que manda batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” e crer em seu nome (Mt 28,19-20); tem íntima ligação com o próprio ato de Jesus em deixar-se batizar por João Batista, como sinal do início de sua missão (Lc 3,21-22).
Para o Batismo há um rito litúrgico repleto de símbolos, mas a mudança se dá diretamente no indivíduo. Dos elementos do rito, o mais importante é a água. Desta tira-se a imagem de “mergulhar”, “imergir”. Daí temos que o Batismo é um sepultar-se na morte com Cristo, de onde recebemos a vida da promessa de ressurreição. Também é o sacramento da “vida nova” para entrarmos no Reino de Deus (Jo 3,5). Por este sacramento não só somos introduzidos na comunidade, mas também nos é dado o caráter de “filhos de Deus”.

2. Da Confirmação (Crisma).

Para os Sacramentos da iniciação, a Confirmação vem dar caráter definitivo ao Batismo. Não é um complemento, mas um ato de “consumação da graça”, onde os fieis são chamados a dar testemunho da Palavra e da fé que receberam – confessar publicamente a fé que receberam e assumiram como prórpia. Na Igreja Católica Romana tal sacramento é recebido na idade da maturidade, diante da assembléia, o que leva o indivíduo a assumir de forma concreta sua missão e fé. Por este sacramento são dados, pela imposição das mãos do Bispo (sucessor dos apóstolos) os dons do Espírito Santo que serão usados e confirmados pela comunidade.
Basicamente, então, temos como símbolos deste sacramento, a imposição das mãos e a unção com o óleo do crisma. Assim como o Batismo, é recebido uma única vez. Nele recebe o fiel a missão de testemunhar vivamente o Filho, revestido da força do Espírito Santo.
Tem sua imagem intimamente ligada ao dia de Pentecostes (Atos 2,1-4), onde a efusão do Espírito impelia os apóstolos ao testemunho público e corajoso, sinal de maturidade e obrigação com a defesa da fé. Compara-se ao gesto de confirmação pelo do batismo recebido também em Atos 8, 14-17.

3. Da Eucaristia.

Este é o Sacramento por excelência, para o qual todos apontam: “A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja” (Ecclesia de Eucaristia, 1). É o sacramento que conclui a iniciação na fé. Por ele o fiel se conforma definitivamente a Cristo Jesus, pois é por tal que o recebemos plenamente.
Confessa-se a presença real do próprio Jesus Cristo em totalidade – corpo, alma e divindade – nos elementos do Pão e do Vinho, que são transformados em toda a sua substância. Não exclui as demais “presenças de Jesus”, mas as confirma pela promessa que fez de estar conosco “até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Os elementos indispensáveis para tal sacramento, portanto, são o pão de trigo e o vinho da uva fermentada. São apresentados e, pelas palavras da consagração – pronunciadas por um presbítero legitimamente ordenado e em comunhão com a Igreja – são transformados definitivamente no Senhor Jesus e dados como alimento para o corpo e para a alma do fiel.
Sua origem também está numa ordem de Jesus e nos seus gestos finais da ultima ceia. Ele mesmo tomando o pão e o vinho, pronunciou as palavras “Isto é o meu corpo” e “este é o cálice da nova aliança” e mandou que se repetisse tal gesto “até que venha” (Mc 14,22-25 e paralelos).

É chamado de “Comunhão” não só por unir-nos ao mistério de Cristo em sua Páscoa (morte e ressurreição), mas por garantir também a unidade de toda a Igreja, que é símbolo do Corpo de Cristo.
II) Sacramentos da Cura.

4. Da Penitência ou Reconciliação (Confissão).

Também conhecido popularmente por Confissão, o Sacramento da Reconciliação, implica na busca pelo perdão dos pecados cometidos depois da purificação recebida pelo sacramento do Batismo. Uma vez salvos definitivamente por Cristo Jesus por sua morte de cruz, os fieis são chamados a uma vida de santidade e fuga do pecado que nos afasta de Deus. Mesmo assim, a condição humana limitada encontra obstáculos que mancham a “imagem e semelhança” de filhos de Deus.
Consiste basicamente na verbalização, pelo reconhecimento íntimo e pessoal, de que pecamos e erramos segundo a moral cristã e do penitenciar-se segundo a culpa individual. Hoje este confessar é feito sob sigilo ao presbítero legitimamente ordenado e autorizado em receber tais confissões e a quem foi dado o poder de perdoar os pecados. Soma-se ao confessar as palavras de perdão e reconciliação com Deus e a Igreja, reintegrando o fiel à caminhada de busca da santidade.
Assim, como os demais sacramentos, sua ordem está nas palavras de Jesus aos seus apóstolos. Este dá a ordem, após sopra sobre eles o Espírito Santo de oferecerem o perdão a quantos o procurar (Jo 20,22-23). Pode ser recebido quantas vezes forem necessárias e é considerado de grande importância para garantir a vivência da fé conforme os ensinamentos de Jesus e como forma de retomar o caminho do seguimento do Senhor e da busca de conversão constante, cotidiana.
Não se restringe a uma busca exterior, mas a uma conformação de todo o ser com a proposta do Reino de Deus no chamamento de “sermos santos como o Pai do céu é Santo”. Também é um testemunho do perdão e do amor infinitos de Deus que “ama incondicionalmente” e tudo perdoa (perdoa e acolhe a todos – conforme a figura do Pai-misericordioso da parábola de Lc 15,11-32).

5. Da Unção dos Enfermos.

Explicitamente este é um sacramento de cura. Em toda a missão de Jesus, este passou curando e libertando todos os que passaram em seu caminho. Curando da doença que afligia o corpo e também a alma; libertando da morte, da corrupção, do medo e do pecado. Jesus viveu fazendo o bem. Por crermos que ainda está vivo entre nós, cremos também que continua a realizar sinais e milagres que garantem a saúde do corpo, da mente e da alma.
Tal sacramento não visa unicamente uma ação intervencionista de Deus diante de uma situação de doen