Na banca de flores [conto]

[um pequeno conto. escrevo contos tb. é uma boa forma de esvaziar o coração! Vou tentar colocar outros aqui de vez em quando…]

Seu olhar estava fixo nas rosas. Grandes, vermelhas, pendentes de seus ramos verdes – espinhos fortes e folhas finas, claras – aos milhares, por todo o balcão do fundo da loja. Algumas juntas em seus buquês enfeitados de ramas verdes e amarelas, papel de seda branco e gotas d’água, fingindo orvalho no início de uma manhã agradável. Mas era pouco mais de meio-dia. Aquele jovem poderia passar ali a tarde toda e não conseguiria ver mais do que rosas, que lhe pareciam bem iguais. E, as rosas, ficariam ali também indiferentes ao olhar do garoto.


– Todas preferem as rosas. São as que mais vendemos. Vermelhas e as maiores – disse sorrindo a florista.
Todas as mulheres gostam de flores, especialmente rosas vermelhas. E ele pensava que não poderia oferecer o que era comum a todas as outras, já que não a considerava comum, como as outras tantas garotas que via por aí. Esta era bem diferente, lhe arrancara sentimentos, desejo de ver mais e tê-la. Agora estava a escolher rosas comuns para uma garota que deixou acanhado seu coração de uma forma incomum.
– Fazemos um buquê como este que você está vendo. Sua namorada vai adorar. É namorada, certo? Claro, garotos na sua idade só podem ter namoradas – continuava a vendedora indiferente aos pensamentos do garoto – doze dessas, ficará lindo!
Doze? Não entendeu. Uma dúzia lhe parecia pouco e também não era um número expressivo. Será que ela contaria quantas rosas havia? Provavelmente não. Nenhuma garota conta. Então, se rosas eram flores comuns, sempre em número de doze, resolveu que não mandaria as tais. Olhou à sua volta. Não era uma floricultura, era apenas um lugar pequeno, como uma pequena banca onde todas as flores ficavam expostas todas juntas, sem uma ordem aparente, formando um jardim que corria do chão ao teto com vasos pendentes e enfileirados nas prateleiras das paredes. Passavam por todo o balcão, e só eram interrompidas pela pilha de cartões de papel coloridos e dizeres poéticos de amor.
– Há outras flores… quais são as mais bonitas? – não estava falando com a florista, apenas pensando alto.
– Têm as margaridas e os vasos de orquídeas de muitas cores; as brancas são especialmente delicadas…
O rapaz já não ouvia mais a florista, penetrado em procurar nas pequenas flores a beleza que encontrou na garota que lhe fizera apaixonado. Agora já não queria algo simples, precisava que ela percebesse que estaria recebendo algo diferente. Nada de costumeiros buquês de rosas chatas – algum outro já poderia ter-lhe mandado às dúzias. Procurava pensar em algo que não parecesse igual. Caminhava por entre as pequenas espalhadas ao chão, dando passos medidos com todo o cuidado para que seus olhos percorressem cada pétala de flor ali exposta – era preciso transmitir sentimentos.

– Posso fazer um buquê de lírios. Com dezoito deles – mais uma vez falando em voz alta.
– Lírios? Não se faz buquê com lírios. Além disso ficará muito grande com tantas flores. Os lírios são mais caros que as rosas e as rosas ainda são as flores da paixão… – interrompia a vendedora.
– Rosas são comuns demais. Posso mandar um buquê grande sim, mas como um pequeno jardim e enfeitar os lírios com as cores de outras pequenas flores. Salpicamos dessas ramas verdes e amarelas, entremeadas das margaridas amarelas…dezoito lírios. É o nosso número – não parava de pensar.

Provavelmente ela não contaria o número de lírios presentes e também não conseguiria carregar sozinha o pequeno jardim. Mesmo assim, queria marcar de símbolos aquele presente, que insistia, não poderia ser igual aos outros. Sem entender muito, a florista estava admirada com a criatividade do garoto e poderia emprestar um pouco de sua técnica em somar as cores das flores e dos papeis de seda. Não era preciso que ele explicasse muito mais, já entendia que se tratava de um amor novo.

A florista terminou o pequeno jardim imaginado pelo jovem. Ele gostou muito e só faltava entregar à sua garota. Escreveu também um cartão novo, já que não queria comprar esses com poemas já impressos, precisava de algo de si. Mais papel de seda e, dobrando, escreveu com letra cuidadosa o nome dela, que agora era seu mantra.
Esperou que terminasse de fazer o presente e, depois de colocar o cartão por entre tantas flores, despediu-se. Esperaria em casa até a hora de poder encontrar com sua amada e receber dela um sorriso como prêmio.

A florista, caminhando pelas ruas, via a admiração do todos que por tal jardim passavam, e todos sorriam. Bateu à porta da jovem que abrindo a porta, sorriu também. Uma lágrima de alegria correu de seus olhos que também sorriam pelo presente inesperado. E, antes mesmo de recebê-lo, chamou pelo nome de seu namorado – nem foi preciso que a florista dissesse de quem vinha, nem que a assinatura no fim do cartão fosse lida – ela sabia de onde vinha. Abriu os braços acolhendo aquele jardim.

Levou até seu quarto, achou o cartão entre as cores e, terminando de ler, contou os lírios.
– Dezoito… são dezoito lírios… nosso número! Meu pequeno jardim!