Discernir a Obra de Deus

Não importa o grupo religioso em que você se encontra, nem qual Igreja ou Comunidade de Fé cristã que você participa; também não importa quem sejam os líderes ou se são “santos” e milagreiros – sempre ficará a dívida de alguns se uma obra “é de Deus” ou é apenas vontade humana disfarçada de bondade e coberta de boas intenções. Algumas vezes se usa até o nome de Deus e orações ou caridade para se burlar a lei, mentir e enganar. Então, como ter o discernimento correto sobre essas coisas?

Eu estive pensando nisso enquanto lia a bíblia em algumas passagens específicas e percebendo que podem ser usadas para saber se algo vem de Deus. A Palavra de Deus serve para orientar nossa vida em muitas coisas e pode nos ensinar a viver bem em comunidade e perceber se as coisas de Deus estão no caminho certo e não estamos sendo enganados por falsos líderes oportunistas ou por pessoas que só nos farão perder tempo ou fazer mal uso de nossa boa fé.

E, para ter esse discernimento sobre qualquer coisa que seja, na sua Igreja ou no seu grupo, não é nem preciso ser um especialista em bíblia, basta entender bem do que tratam esses dois trechos que vamos citar logo abaixo.

1. Cuidado com o fruto podre – Lc 3,9 / Mt 12,33

Vamos começar citando os textos e você verá como fica claro entender o que estou querendo propor aqui:

“O machado já está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” [Lc 3,9]

“Plante uma árvore boa e ela dará fruto bom; plante uma árvore prejudicada e ela dará frutos prejudicados. Pois, pelo fruto conhecemos a árvore.” [Mt 12,33]

Isso já é até ditado popular “fruto podre estraga todo o cesto”. Mas aqui a Palavra de Deus vai mais longe e não olha apenas para a fruta que está perdida. Quando o fruto não presta, então toda a árvore já estava perdida antes. Uma árvore boa pode dar frutos ruins? Impossível.

Mas é possível que o fruto se perca sozinho em duas situações:

  • a) se não for consumido a tempo = então aquele fruto não serviu o seu propósito. Ficou guardado e apodreceu, não matando a fome de ninguém, pois era para isso que servia. Se o fruto é colhido da árvore boa, mas não dá o resultado esperado, então de nada valeu a árvore produzir bons frutos.

Assim é também com a Obra de Deus. De que vale um grupo de pessoas que rezem e cante, busquem a Deus e vivam seu caminho de forma reta e irrepreensível, mas que seus frutos não podem ser vistos nem consumidos por mais pessoas. Se este grupo não produzir resultados satisfatórios será como o empregado que recebeu um talento e o enterrou, não fazendo que produzisse mais para seu senhor (Mt 25,14-30).

  • b) ou se se desprender da árvore e cair no chão = nesse segundo caso é como se o fruto fosse esquecido ou até desprezado. As pessoas olham para a árvore, vêem seus frutos, mas ninguém quer colher, nem se sente motivado em se aproximar para usufruir daquele alimento. Assim aquela árvore pode ser bela e frondosa, mas está no limbo. A Obra de Deus é para ser vista e atrair as pessoas para o seu Amor e para a Salvação de Jesus.

Se todos passam, mas desprezam aquela obra e nem se interessam por seus frutos, aquela obra é morta, terá o machado como solução e o fogo como castigo.

2. Renovar-se sempre – Mt 9,17

Agora vejamos esse outro trecho e como ele pode nos ajudar a discernir a Obra de Deus e as pessoas que trabalham nela.

“Não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres arrebentariam, o vinho se derramaria e os odres se estragariam. Vinho novo em odres novos, e ambos se conservam.” [Mt 9,17]

Veja como são as últimas palavras: “ambos se conservam”. A Palavra de Deus é sempre nova e busca pessoas novas, renovadas em seu amor, em seu Espírito. Se queremos que as coisas de Deus sejam sempre bem conservadas, então devemos dar espaço à renovação constante e aceitar que não sabemos tudo e que as coisas também mudam.

É natural do ser humano acomodar-se e se conformar com situações que parecem boas e favoráveis. Bem como é comum nos deixarmos levar pelo caminho mais fácil e sem desafios novos e até nos prendemos às nossas velhas rotinas acreditando que sabemos qual a melhor maneira de fazer tudo e que somos os únicos que sabem fazer aquele serviço direito.

Essa tendência a aceitar a situação mais cômoda não é da Obra de Deus. As coisas de Deus estão em constante renovação e se faz para pessoas que não se acomodam nem se conformam. O Espírito Santo é dinâmico e está sempre nos desalojando de nossas fraquezas e não nos deixa ficarmos presos às nossas limitações. Se algo está se perdendo na Obra de Deus, então essa obra não está mais no caminho de Deus.

Veja bem se não há vinho ficando pelo caminho e se os jarros de vinho não estão vazando e a graça se perdendo por coisas velhas e comodismos estranhos. O Espírito Santo é vento que sopra onde quer e ar parado não é vento.

Discernimento é caminho de Deus.

Assim, podemos concluir, não basta que algo seja dito em oração ou que alguém diga que sentiu em seu coração ou ouviu a voz de Deus. Nem podemos nos contentar com líderes que supomos serem inspirados e acreditar em toda palavra que dizem. Deus nos deu a inteligência para compararmos as coisas e os olhos para vermos e, quando isso nos faltar ou não formos capazes de ver por nós mesmos, Deus nos deixou a sua Palavra e nada pode ficar fora de suas balizas.

Quando se deparar com situações complicadas em seu grupo, então pare um pouco, abra a sua bíblia nessas passagens citadas e reflita com todos, revejam os caminhos que seguiram e pensem se o que estão vivendo está em acordo com a Palavra de Deus para saber se o caminho escolhido e trilhado até aquele momento é mesmo o caminho do Senhor ou dos homens.

Alguém, em Wall Street leu Marx?

Depois de décadas defendendo uma economia liberal e palavras mágicas como “não intervenção do Estado”, “auto-regulação do mercado”, “mão invisível” e todos os outros jargões do capitalismo moderno, (Neo-)Liberal, um impasse. Ao que temos visto nos últimos dias é um descontrole total do mercado internacional, especialmente nas potências econômicas, tudo puxado pelos EUA.

Agora, pacotes econômicos desesperados injetando todo o dinheiro possível (mais de 700 bilhões de dólares, só do governo estadunidense). Ação coordenada dos Bancos Centrais na redução conjunta da taxa de juros. O que mais me chamou a atenção foi a estatização de alguns bancos na Inglaterra – um governo que acredita na não-intervenção e no estado-mínimo estatizar bancos (comprar bancos praticamente falidos) é um duro golpe no capitalismo moderno.
Alguém esqueceu, então, de ler Karl Marx, mais especificamente “O Capital”. Lá ensina que o lastro do dinheiro (capital) é a força de trabalho e o produto (mercadoria) resultante desse trabalho. Assim, algo vale pelo tempo de trabalho, pela força de trabalho gasto para produzi-lo. Mas, o que temos visto é “capital especulativo”. Dinheiro virando dinheiro. Dinheiro q não tem lastro real – dinheiro virtual. Os bancos, as bolsas e o(s) mercado(s) têm especulado com algo fictício.
Vejam o que Marx escreveu:
“O acréscimo de valor, pelo qual o dinheiro deve se transformar em capital, não pode provir desse próprio dinheiro. Se serve de meio de compra ou de meio de pagamento, somente realiza o preço das mercadorias compradas ou pagas por ele.”
Não se pode ganhar dinheiro sem uma mercadoria, sem produção.
“É preciso, portanto, que a mudança de valor expressa por D – M – D’, conversão de dinheiro em mercadoria e reconversão da mesma mercadoria em mais dinheiro, provenha da mercadoria.”
Isso soa quase como uma profecia apocalíptica. Tipo aquelas que ouvimos da boca de Jesus (esse mesmo…): “Não se pode servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13c). E tem mais: “O Mercenário trabalha só por dinheiro” (Jo 10,13a). Mas é o que mais temos visto. aqueles homens q trabalharam só pelo dinheiro e fizeram dele seu ídolo máximo, seu deus e senhor, agora estão por segurar as calças.
Até me lembro de uma música do Tom Zé chamada “Moeda Falsa”. É uma boa sátira com a situação atual. Se podemos rir da situação, que seja como os gênios e com arte; veja a letra:
Moeda Falsa (Tom Zé)

E logo (agora que) o Brasil, que vai ser um país rico, assim que esse diabo de petróleo acabar
O dólar é moeda falsa
Americano já não segura as calças
Alemanha quase pedindo esmola
A inglesa não usa mais calçola
Na Itália não tem mais sutiã
Suíça não lava a bunda de manhã
Ô, Cabrobó
Eles vão toma no fiofó

Transubstanciação somente do Pão?

[Comentário sobre a transubstanciação da Eucaristia, na vida da comunidade, da pessoa e do mundo à nossa volta. Estudo baseado no texto do então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).]

Sacramento das transformações.

Já comentei aqui em outros artigos sobre a Eucaristia (ver menu ao lado) sobre um texto do Papa Bento XVI antes de ser eleito. Um texto bem pastoral e contagiante nas palavras de devoção e amor que ele tem por Jesus presente na Eucaristia.

Segue um trexo de um comentário que fiz sobre parte dessa intervenção do Cardeal Ratzinger num congresso eucarístico na Itália em 2002. Para ler a intervenção na íntegra, clique no link: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20020602_ratzinger-eucharistic-congress_po.html

Estamos na ultima parte do texto. Muito conciso, mas profundo em teologia e espiritualidade, introduz-nos numa percepção da grande transformação que opera em nós o celebrar e receber o Pão e o Vinho. Chama aqui a Eucaristia de “Sacramento das transformações”.

Muitas palavras das formulações teológicas de séculos perderam seu verdadeiro sentido e profundidade, não pela evolução da teologia ou de outras ciências, mas por terem caído em desuso ou por simplesmente não oferecerem mais significado claro. A grande maioria do povo nunca lançou mão de tais para explicar sua fé. Isso também aconteceu com a palavra “transubstanciação”. Mesmo os teólogos evitam seu uso e uma leitura mais superficial e descuidada pode nos levar a entendimentos equivocados. Mesmo assim, neste texto, o Cardeal Joseph Ratzinger usa-a de forma magistral. Dá a ela todo o significado de transformação que a eucaristia proporciona, indo além do Pão e do Vinho eucaristizados. Como um místico cristão dos primeiros séculos faria, dando conteúdo espiritual para as formulações teológicas.

Lendo o Cânone Romano da liturgia eucarística no momento da consagração das espécies, afirma que “O pão torna-se corpo, o seu corpo. O pão da terra torna-se o pão de Deus, o ‘maná’ do céu, com o qual Deus alimenta os homens não só na vida terrena, mas também na perspectiva da ressurreição”, ressurreição essa que já começa a acontecer naquele instante. Relembra também dois textos importantes do evangelho, onde Jesus é tentado a transformar pedras em pão (Mt 4,3-4 e Lc 4.3-4) para matar sua fome, e ainda, sendo provocado, lembra que Deus pode fazer das pedras surgir filhos de Abraão, mas prefere “transformar o pão no corpo, no seu corpo”. Jesus pode dar seu corpo como alimento no pão e no vinho, pois prefigura sua entrega definitiva na cruz. “Ele pode tornar-se dom, porque é oferecido. Através do ato da doação ele torna-se capaz de comunicação”.
Começa aqui a relatar as transformações, num total de cinco delas, onde, na última ceia acontecerão três delas num único ato que gera outras duas transformações. A transformação originante, que está antecipada na ultima ceia, é o que Jesus faz com a violência sofrida, onde ele mesmo “põe fim à violência, transformando-a em amor. O ato de morte é transformado em amor. Esta é a transformação fundamental, sobre a qual tudo se baseia”. Por esta transformação é que o mundo pode ser redimido, onde o Cristo vence todo tipo de morte, vence tudo o que gera morte – “a própria morte foi transformada”. “E assim, na transformação da ressurreição Cristo continua a subsistir, mas agora de tal forma transformado, que seu corpo e o dar-se já não se excluem, mas um implica o outro”. Agora, ao recebermos Jesus, o recebemos por inteiro, não só espiritualmente, mas na sua totalidade, também em seu corpo.

Somado a isso temos a segunda transformação, dependente total da primeira e nela contida. “O corpo mortal [de Jesus] é transformado no corpo da ressurreição: no espírito que dá vida”. Isto também é antecipado na ceia, onde num mesmo momento Jesus morre na cruz e se é ressuscitado. Toda esta transformação é vivida na ceia e na entrega de Jesus. Daqui passamos para a terceira transformação que diz respeito ao Pão e o Vinho. Neles será contida toda a transformação e ação do Cristo Jesus. Estes são transformados de tal maneira que “está presente o próprio Senhor que se dá, a sua oferenda, ele mesmo porque ele é dom. O ato da doação não é algo dele, mas é ele próprio”. Pão e Vinho são transformados na presença do próprio Senhor.
Chega-se às duas ultimas transformações provenientes do que acabamos de ver. Jesus se faz presente no Pão e no Vinho com uma finalidade clara que é transformar o homem num só corpo com ele:

“Para que nos tornemos um só pão com ele e depois um só corpo com ele. A
transformação dos dons, que é unicamente a continuidade das transformações
fundamentais da cruz e da ressurreição, não é o ponto final, mas, por sua vez,
só um início. O fim da Eucaristia é a transformação de quantos a recebem na
autêntica comunhão com a sua transformação”.

E assim, “nos tornamos com Cristo e em Cristo um organismo de doação, a fim de vivermos com vista à ressurreição e ao novo mundo”. Este é o passo a ser dado para a quinta e ultima transformação. Toda a criação é participante deste evento em nós e por nós homens. A Criação também é transformada para tornar-se “habitação viva de Deus”.

Por estes passos aprofundamos no sentido da real transubstanciação que vai muito além da discussão do que acontece com as espécies eucarísticas. A totalidade da presença de Jesus não pode ser contida ou limitada pelo pão e pelo vinho, mas deve transbordar em nós que o recebemos e dele nos alimentamos. Pois não basta fazer-se presente sob o véu da aparência de pão e vinho se não promover transformações definitivas em nós homens. É preciso ir e comer, receber e beber de seu corpo, provar da transformação.
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39. Ter pra não Ser.

[Eu poderia começar este artigo falando assim: “Diante dos desafios desse mundo para a vida cristã…” – Mas ficaria parecendo que estou reclamando do mundo em que vivo.]

Desafios há para todos, seja qual for a vida que queira viver ou ideais que escolha para pautar seu caminho. Desafio mesmo é ser cristão em qualquer lugar, seja onde for. Aquele modelo, Jesus Cristo, é um ideal árduo de se seguir e, viver em clausura, isolado do resto e das tentações não é uma opção possível (não pra todos – e nem estou dizendo que seja fácil também, não!).

É que, pra viver nesse mundo, temos que “viver no mundo”.

Temos que trabalhar, estudar, ganhar dinheiro, divertir… trabalhar mais… tentar ganhar mais dinheiro… sustentar um padrão de vida – quase novela das 8 – e trabalhar mais um pouco. E, claro, é preciso mencionar a escassez de tempo (quem não reclama da falta de tempo?!?). Daí, tempo é dinheiro. Só não sei onde tem pra vender esse tal de tempo: muita gente gostaria de comprar umas horinhas a mais por semana – uns pra trabalhar mais e ganhar mais dinheiro pra comprar mais “tempo”; outros só pra ter um pouco mais e continuar reclamando que ainda falta (difícil agradar a todos!).

Partindo dessa lógica poderíamos até entender porque alguns não têm “tempo pra Deus”. E não falo só de ir à igreja – como se isso significasse “ter tempo pra Deus”. Mas falta tempo até pra ser o que julgamos ou dizemos que somos. Não dá pra ser cristão o tempo todo (quase hora nenhuma), que dirá ser alguém.

Aí encontrei na minha bíblia (tem na bíblia dos outros também) uma conversa de Jesus com um sujeito sem nome que começa da seguinte maneira:

Mt 19,16-22
“Alguém aproximou-se de Jesus e disse: ‘Mestre, o que tenho que fazer de bom pra ter a vida eterna?'”

Como todos conhecem esse trecho (eu acho!?!), vou tratar do que sei que ninguém repara ao ler.

O escritor desse evangelho começa dizendo que um qualquer, alguém indefinido, sem identidade conhecida, alguém sem importância ou relevância suficiente para a narrativa, aproximou-se de Jesus para falar. Isso é bem significativo se pensarmos em quantos já se aproximaram de Jesus e quantos são relevantes e quantos são ignorados. Mas tenho certeza que não foi Jesus quem o ignorou.

Continua: esse tal quer saber como faz pra TER a vida eterna. Basta uma resposta simples e objetiva de Jesus para ele ficar satisfeito. Quer uma receita pronta, um produto pra comprar e levar pra casa com manual de instrução simples de ler e sem complicação pra montar. Nada que tome muito tempo ou que envolva muito compromisso.

Parece com o que temos hoje em dia com as quase mercadorias religiosas. Religião é um tipo de supermercado das alegrias fáceis e da total falta de compromisso: levo o que digo que convém, Deus que se adapte às minhas necessidades. Tem gosto pra tudo, e tudo pra todo gosto; religiosidade de todo tipo e preferência; claro, sempre sem precisar se comprometer com nada e sem tomar o seu precioso tempo que ainda não está à venda no mercado!

O que poucos sabem é que não dá pra TER a vida eterna; não é mercadoria.
[agora fiquei na dúvida se eu precisava mesmo ter escrito isso aí!?! não é óbvio? – vai saber! Pra garantir, escrevo assim mesmo.]

Pra quem quer TER, possuir a vida eterna como um bem de consumo qualquer para pessoas quaisquer, a resposta de Jesus não poderia ser noutro tom:

“Se você quer SER perfeito [bom], vai, vende tudo o que você TEM, distribui o dinheiro pros pobres, e assim poderá TER um tesouro no Céu. Depois [só depois] vem e segue-me.” (vv. 21)

Esse Jesus não está preocupado com o “ter”, mas com o SER. Importa ser alguém. Esse que começou falando com Jesus chegou como um qualquer, como “alguém” dentre muitos. Na narrativa ele não É (do verbo “ser”) relevante, pois valoriza os bens mais que sua própria identidade – quer apenas possuir.

Jesus, ao contrário, quer as pessoas inteiras, com identidade, que saibam o que SÃO (do verbo “ser”) que têm identidade.
Mas, o final da história é triste. Esse tal não entendeu, foi embora sem abandonar seu apego ao “ter”:
“… o jovem foi embora cheio de tristeza, pois possuía [“possuir” e “ter” dá na mesma] muitos bens.” (vv. 22)
Ele preferiu continuar sem identidade.

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[O próximo artigo será continuidade desse e um comentário de um trecho da Exortação Apostólica CHRISTIFIDELES LAICI de João Paulo II, exatamente sobre os desafios de ser cristão no mundo de hoje.]

37. Uma só Igreja. Uma só…

Apropriado terminar o mês de junho com algumas recomendações de leitura. Esse é o mês em que celebra-se a festa de São Pedro e São Paulo, colunas da Igreja. E, foram estes homens que deram a vida para garantir que o anúncio do Evangelho de Jesus não fosse esquecido. Cada um a seu modo, mas com os mesmos objetivos: propagar a palavra do Reino.

Mt 16,13-19 – “Feliz és tu, Simão…”

– A primazia de Pedro!

Não há como desprezar isso: Pedro foi o primeiro lider dos cristãos; o primeiro Papa. Basta ver como Jesus relacionou-se com ele.

1) Mt 16, 18: “Por isso [pela tua fé] que te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja.” = Foi da vontade de Jesus construir a Igreja e colocar à frente dela 12 homens e, dentre os 12, escolheu Pedro para garantir a unidade dos irmãos e confimá-los na fé (cf. Lc 22,32: “Mas eu rezei por ti, para que a tua fé não falhe. E tu, uma vez convertido, fortalece teus irmãos.”).

2) Lc 5, 3: “[Jesus] Subindo num dos barcos, o de Simão [Pedro], (…) sentando-se ensinava do barco à multidão.” = Este é um texto bastante simbólico. Jesus quis pregar, mas do barco de Pedro, de lá ensinava à multidão. Ainda é assim: Jesus ensina do barco de Pedro pelos seus sucessores. É importante garantir a sucessão apostólica para termos segurança na fé que recebemos e professamos. Quem não está no barco de Pedro, não está como Jesus.

3) Jo 21, 11: “Simão Pedro subiu ao barco e arrastou para a terra a rede, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu.” = A rede de Pedro não pode ser rompida. Ela garante a unidade, para formarmos um só corpo, como Jesus mesmo desejou:

“A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” [ João 17:21 ]

É Pedro quem garante a pesca e de seu barco vem o milagre de uma rede cheia.

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Algumas leituras recomendadas sobre o tema da unidade:

LUMEN GENTIUM sobre a Igreja. – Concílio Vaticano II.

Doutrina sobre a Igreja – Congregação para Doutrina da Fé.
DOMINUS IESUS – sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus e da Igreja.
UNITATIS REDINTEGRATIO sobre o ecumenismo. – Vaticano II.
NOSTRA AETATE sobre a Igreja e as religiões não-cristãs. – Vaticano II.

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35. DEUS CARITAS EST – Amor!

Cremos num Deus que é amor.

Podemos ler e reler a bíblia, mas algumas vezes nosso entendimento só se abre de fato quando alguém mais ilustrado nos dá o caminho a seguir.

Lemos assim em 1Jo 4,16:
“Nós conhecemos e cremos no amor que Deus
tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece
no amor permanece em Deus e Deus nele.”

Veja como Bento XVI explica isso:
“Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida.”

Lembro até um pouco da carta de Paulo aos Coríntios que começa com um elogio dizendo que eles têm todos os Dons que vêem de Deus. Notem bem, TODOS os dons:
“Assim, enquanto esperam a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo,
não vos falta dom algum.” (1Cor 1,7)

Mas, mais pra frente achamos isso: Paulo vai tratar sobre a diversidade de Dons (carismas), ensinando aquela comunidade que já possuia todos os dons a usar bem a graça de Deus em favor de todos e como devem formar um único corpo, viver em unidade (cf. 1Cor 12).
Terminando o capítulo 12, no versículo 31 lemos o seguinte:
“Aspirai aos dons mais elevados.
E, agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos.”

E começa o capítulo 13 falando do amor cristão. É o amor (“agape”) que transmite o dom recebido. Sem isso não é possível identificar-se como cristão e seríamos como sinos que só fazem barulho (cf. vv. 1).
A verdade é que, para Paulo, não bastava ter todos os dons, importava mesmo viver a radicalidade do amor, imitando Jesus. Pra entender, basta ler Jo 3,16:
“Deus amou o mundo de tal modo que deu seu filho único,
para que todo o que nele crer não morra,
mas tenha a vida eterna.”

E podemos completar voltando a 1Jo 4,10:
“Nisto consiste o amor: não em termos nós amado Deus,
mas em Deus nos amar primeiro enviando o seu filho (…).”

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Aqui deixo então duas sugestões de leitura. A primeira é a carta Encíclica do Bento XVI – DEUS CARITAS EST. Com ela podemos aprender mais sobre o amor cristão. É uma boa fonte de estudo para as famílias, especialmente os casais. Podem aprender muito sobre o modelo de santidade e vivência desse amor conjugal também.
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

A outra dica é ler a carta de Paulo a Filêmon. Pra isso tem que abrir a sua bíblia e procurar.
É a menor carta de São Paulo, mas é a mais profunda sobre como deve ser praticado o amor ensinado por Jesus. Você terá grandes supresas. Prometo que em breve publico aqui um comentário sobre essa carta.

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34. Mt 10,26-33 – Podem matar o corpo.

“Não tenhais medo dos homens…”
“Não tenhais medo daqueles que matam o corpo…”
“Não tenhais medo!”
[Mt 10,26.28.31]

No Evangelho desse domingo, 12o. Comum da Liturgia, Jesus repete por três vezes para não terem medo os seus discípulos. NÃO TENHAM MEDO!
Quem segue Jesus não pode ter medo.
– Primeiro ele diz de forma genérica para não temer os homens. Toda verdade é sempre revelada e a mentira é descoberta. Suas palavras devem ser proclamadas de cima dos telhados (vv.27).
– Depois ele repete o mesmo conselho, mas dessa vez direcionando: não temer quem persegue os que proclamam a verdade. Aqueles só podem matar o corpo, não matam a alma. Lembra bem o que temos em Mt 16,25:
“Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la;
e quem perder a sua vida por causa de mim, a encontrará.”
– E, pela terceira vez, fala para não ter medo. Mas agora Jesus é enfático e imperativo. Não podemos ter medo de nada.

Podemos dizer: Não ter medo é um imperativo ético para todo cristão.

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Não ter medo de nada!

Coragem é uma boa palavra de procurarmos na boca de Jesus, e seu uso nos evangelhos, veja:
– Mt 9,2 – “Jesus disse ao paralítico: «Coragem, filho! Teus pecados estão perdoados»”
– Mt 9,22 – “ao vê-la, disse: «Coragem, filha! Sua fé curou você.»”
– Mt 14,27 – “porém, logo lhes disse: «Coragem! Sou eu. Não tenham medo.»”
– Mc 6,50 – “Mas Jesus logo falou: «Coragem! Sou eu, não tenham medo!»”
– Mc 10,49 – chamaram o cego e disseram: «Coragem, levante-se, porque Jesus te chama!»”
– Jo 16,33 – “(…) terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo.”

E ter medo, para Jesus, é não ter coragem para assumí-lo como seu Senhor e Deus;
e declarar-se assim de cima dos telhados; TESTEMUNHAR sempre! (Mt 10, 32s)

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Defendendo a Vida!

Como exemplo de coragem, coloco aqui o link de uma resportagem que mostra a força e a luta de três bispos no Norte e Nordeste do Brasil. Um é o arcebispo dom Mauro Aparecido dos Santos, que defende os pobres sem-terra contra os latinfundiários donos de terras infindas. Outro é dom José Luiz Azcona que também faz as mesmas denúncias e enfatiza: “há uma sociedade doente, pobre e moribunda”. E ainda o bispo Flavio Giovenale, que denunciou a exploraçào sexual de menores.
Segue a reposrtagem toda: Bispos marcados para morrer.

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31. Mt 9,36-10,8 – Vocação universal.

[segue um pequeno comentário sobre o trecho do envagelho e alguma recomendação de leitura sobre vocação cristã.]

Os trabalhadores são poucos.

O evangelho lido no 11o. Domingo do Tempo Comum provoca-nos pensar sobre nossa vocação cristã no mundo de hoje. Jesus começa com uma constatação, dizendo que o lugar de “trabalho” do cristão, o mundo em que vivemos, é muito grande para tão poucos disposto à missão.
Provocativo!

Ele chama o mundo (ou as pessoas) de “messe”. O que é a messe?
Para o nosso mundo urbano essa é uma palavra completamente desconhecida, quase sem significado. A messe é a plantação, a seara pronta, em estado de se ceifar, para ser colhida. Neste mundo da técnica e da mecânica avançada, poderíamos pensar que para esta grande colheita de Deus, poderíamos usar as máquinas colheitadeiras computadorizadas, onde basta um único operador para arrancar com perfeição a planta do solo sem disperdícios.
Seria como as vastas plantações de trigo e máquinas cortando o relevo vegetal.

Mas, a messe de Deus é delicada. Precisa de cuidado e perfeição que só a mão humana pode conseguir. Por isso o convite de Jesus é dirigido aos homens e seu apelo é que “o Reino de Deus está próximo”.

O chamado a viver em santidade e testemunho cristão no mundo é difícil e a Igreja reconhece alguns obstáculos (citando CHRISTIFIDELES LAICI 2):

“O caminho dos fiéis leigos não tem estado isento de dificuldades e de perigos. Em especial podem recordar-se duas tentações, de que nem sempre souberam desviar-se: a tentação de mostrar um exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem frequentemente a uma prática abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, económico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a acção concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas.”
Para tratar de vocação – o chamado de Deus para trabalharmos em sua messe – recomendo a leitura de alguns textos. são documentos da Igreja que nos indicam como ser cristãos e dar testemunho no mundo de hoje da fé que professamos.

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[clique nos títulos para abrir os textos na íntegra]

Do concílio Vaticano II:
Constituição Domática LUMEN GENTIUM – sobre a Igreja.
Constituição Dogmática GAUDIUM ET SPES – sobre a Igreja no mundo atual.

Outros:
Exortação Apostólica CHRISTIFIDELES LAICI – vocação e missão dos Leigos na Igreja e no Mundo.
Exortação Apostólica FAMILIARIS CONSORTIO – sobre a função da Família Cristã no mundo de hoje.
Carta apostólica MULIERIS DIGNITATEM – sobre a vocação da Mulher.

Exortação Apostólica PASTORES DABO VOBIS – sobre a formação sacerdotal.

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26. Maria: Mãe de Deus! (Teotokos ou Cristotokos?)

Chamamos Maria de “Mãe de Deus”. Mas, o que entendemos disso?
Para ilustrar essa teologia tão complicada, cito abaixo o comentário do Catecismo da Igreja Católica. Esse é um livro de capa amarela, que pode ser encontrado em toda boa livraria católica e também deveria constar do material de leitura de todo Católico. Nele pode-se ler uma síntese dos principais consteúdos da nossa Doutrina da Fé e aprender mais sobre o que cremos e professamos como nossa fé cristã.

Sobre o tema da maternidade divina de Maria, vale salientar que este é um conteúdo Cristológico, ou seja, diz respeito à pessoa de Jesus, quer tratar sobre quem é Jesus para nós. Assim, a Igreja quis definir, ao chamar Maria de “Mãe de Deus” (Teotokos), que o ente nascido de seu ventre é Deus em sua totalidade – o verbo de Deus humanado, feito homem, conforme Jo 1,1.14a e Lc 1,26-38 (a saber):

Jo 1,1.14a = “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. (…) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”
Lc 1,28.30-32 = “Disse o anjo: ‘Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo (…). Maria, tu encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado ‘Filho do Altíssimo’.'”

Concorda-se que, dizer de Maria apenas Cristotokos (Mãe do Cristo), ficaria vago, levando alguns a crer que Jesus não é “Deus de Deus (…) Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”. Pode-se comenter o engano de algumas heresias e crer que Jesus foi um homem qualquer, apenas inspirado por Deus ou adotado por Deus; ou erroneamente que era Deus, mas apenas com aparência humana.

Chamar Maria de Teotokos (Mãe de Deus) é garantir a totalidade de nossa fé em Jesus sendo homem por inteiro e Deus por inteiro, sem se dividir ou diminuir em sua glória eterna.

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Então, citando um pequeno trecho do Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 466:

“A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa divina do Filho de Deus. Diante dela, S. Cirilo de Alexandria e o III Concílio Ecumênico, reunidio em Éfeso em 431, confessaram que ‘O Verbo, unindo a si em sua pessoa uma carne animada por uma alma racional, se tornou homem’ (DS 250). A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde sua concepção. Por isso o Concílio de Éfeso proclamou em 431, que Maria se tornou verdadeiramente Mãe de Deus pela concepção humana do Filho de Deus em seu seio:
Mãe de Deus não porque o Verbo de Deus tirou dela sua natureza divina, mas porque é dela que ele tem o corpo sagrado dotado de uma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne (DS 251)’.”

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Aqui está uma boa explicação de porque chamar Maria de Mãe de Deus (Teotokos)!

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