9. A Bíblia e sua originalidade

Tenho pensado naqueles que nascemos neste mundo onde tudo acontece e pode ser acompanhado em tempo real (ou quase), pela internet, televisão, jornais e revistas. Hoje a mídia tem que descobrir formas cada vez mais rápidas e imediatas para atender à demanda de informações onde, mais do que a velocidade, é exigida a credibilidade.
Penso que homens visionários, como George Orwell em seu livro “1984”, não poderiam prever que, de fato as câmeras registrariam tudo, não só as intimidades, mas também os grandes feitos da humanidade – sejam eles bons ou ruins. A bem da verdade, hoje temos câmeras até em nossos celulares que registram desde nossos bichinhos de estimação, até atentados terroristas em metrôs.

A presença dessa tecnologia somada à demanda de velocidade nas informações, têm nos feito mais exigentes com a exatidão, mas também faz-nos menos capazes de interpretar a realidade à nossa volta, pois, muitas vezes, não nos é dado o tempo para pensar, refletir sobre o que é apresentado. Compramos a informação pronta, e nos contentamos em apertar o botão de liga/desliga, absorvendo informação. Isso nos faz humanos menos capazes de questionar e não adquirimos conhecimentos, já que para isso é preciso a dúvida e a busca por uma resposta.

No dia 24 de março de 2008, fui obrigado a voltar meus pensamentos para o artigo de opinião publicado no jornal O Tempo (Belo Horizonte-MG) que levantava uma dúvida sobre se de fato a bíblia pode ser chamada de “Palavra de Deus”, diante das muitas alterações que sofreu ao longo dos séculos por interesses – segundo a opinião do autor daquele artigo. Ao ler tal, fiquei a imaginar se nos tempos bíblicos haveria máquinas digitais e transmissões via-satélite; internet, imprensa e televisão. Ou mesmo jornalistas, enviados especiais, prontos a testemunhar fatos como um mar se abrir (Ex 14) ou acompanhar e analisar os movimentos políticos dentro do palácio do Rei Davi ou pra tocar as feridas do Jesus ressuscitado (Jo 20,27), caso o Tomé não tivesse coragem pra isso. Mas isso não torna o que lá foi relatado, menos verdade do que o que temos em nossa mídia informativa. Existem grandes diferenças.

A bíblia não é um grande jornal noticioso com o intuito de informar e contar com exatidão o que se passou. Não busca a verdade “nua e crua” dos fatos, pois não é o fato que realmente importa. Existe nela, significado, tradução da ação humana e sua capacidade de relacionar-se com o mundo que Deus tem criado e com os homens que neste habitam. Dela podemos tirar o diálogo mais profundo de nossa afetividade, quando nos é dado chegar ao coração daquele que cremos morar em nosso coração, mas que não nos deixa presos, levando-nos ao coração do outro, do próximo. Isso, porque, a bíblia não é para ser divina, mas é humana. Não fala aos anjos, nem nos foi dada do céu como algo desencarnado de nossa realidade cotidiana. Deus a fez nascer dos homens e, por ser tão humana, é que pode ser chamada de Palavra de Deus!

Palavra de Deus quando reconhecemos que Ele mesmo quis assumir sua criação, seu feito e participar disto que somos. O Deus da bíblia não é um deus que abandou-nos à sorte, mas quer também participar da história e assumir nossa história: a história humana é também história divina, é também ação de Deus. Se não reconhecêssemos a bíblia como sendo produto da ação humana, não poderia ser fonte de fé e esperança para muitos povos, culturas e religiões. Foi escrita por homens, e alterada por homens, mas assumida por Deus: Palavra de Deus! Sendo assim, se Deus a assumiu para si e reconhecemos nela sua dimensão humana, é isso o que de fato importa.

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