8. E se não existirem mais árvores?

E se não existirem mais árvores?
Esse tal aquecimento global é bem culpa do homem mesmo, que não sabe conter-se em seus desejos, se pensa eterno e, com isso, todo o resto tem que lhe servir sempre – nada pode faltar ou falhar.

Poderíamos usar a devastação ambiental como uma ótima metáfora para os nossos relacionamentos humanos, que, por fim nos levam não apenas à falência de nossas convivências cotidianas, mas também à degradação do meio-ambiente. Pode parecer estranho assim, mas tudo está bem entremeado e tem bem a ver com uma única atitude: como usamos as pessoas e as coisas à nossa volta.
É chato falar de responsabilidades. Ainda habita em nosso íntimo um Peter Pan voador que não quer saber das suas obrigações, muito menos de como suas peraltices podem afetar o entorno. O que bem queremos mesmo é viver o capitalismo a ferro e fogo: maximizar nossos lucros e reduzir custos. Nada mais justo para quem está na guerra do mercado onde “só sobrevivem os mais fortes” – ou os mais competentes (soa em nossas cabeças uma voz em tom arrogante; previsível). Mas isso não nos isenta de olharmos à nossa volta e tentar, ao menos tentar, rever nossas atitudes, mesmo as menores.

Lendo a revista mensal “Caros Amigos” (Abril/08, pag. 12) no artigo de Mylton Severiano, somos levados a relembrar a história do povo que vivia na Ilha de Páscoa, no meio do Pacífico. Resumindo: eles derrubaram todas as árvores de sua pequena ilha e deixaram de existir como civilização. Como estavam no meio do nada, não tiveram a quem recorrer, nem pra onde correr. Sabe-se lá com que estavam preocupados que não repararam que, destruindo todas as árvores, seriam destruídos também.

Bom, mas, o que isso tem com responsabilidade, relação humana e meio-ambiente?
Existe uma velha palavra, já desgastada e bem escondida em nossas gavetas interiores: egoísmo, que para achar, com certeza está na gaveta intitulada “Individualismos”. Numa era de publicações de auto-ajuda, onde o “eu” é o deus mais poderoso do universo e “o outro” é o caminho por onde passo e não alguém com quem caminho, somos obrigados a reparar que agir assim só nos leva à degradação das “pequenas coisas” realmente importantes: família, amor, amizades verdadeiras e, até quem sabe, o mundo com suas árvores. Se não somos capazes de pensar no outro como companhia, significa que temos um mundo muito pequeno para viver de fato; menor que a Ilha de Páscoa e passamos a acreditar que todas as árvores estão a nosso serviço – ou seriam pessoas?
A humanidade é um organismo quase único, considerado assim pelos cientistas modernos, onde suas ações são responsabilidade de todos, como um único corpo. É preciso mobilizar toda a humanidade para ter mudanças significativas nas questões que afetam também a todos de forma igualmente significativa e até individual – além de coletiva, claro! Esse é o aquecimento global. Tem muito a ver com as árvores que ainda estão por aí, mas tem mais relação com nossa responsabilidade coletiva. Aí, ligamos uma coisa à outra: se não somos capazes de reconhecer o outro, como agir de forma coletiva? Quanta mudança pode ser promovida quando olhamos além de nosso “rei na barriga” ou nosso “umbigo-mundo”…

Já sabemos como seria o mundo se não existirem mais árvores: seria (ou será) como a Ilha de Páscoa, uma civilização inteira destruída, que foi incapaz de pensar no coletivo porque preferiu o individualismo radical do capitalismo-acumulação-de-riqueza e o eu-sem-o-outro. Viver sozinho deve ser bem triste; levar outros a viver assim, também é ruim. Mas ainda existem aqueles que enxergam sua responsabilidade cotidiana e, com ações simples, como preocupar-se com o outro, já fazem mudar o mundo, mesmo sem plantar árvores, só deixando as que tem.
E, para esse texto não ficar apenas no mundo das idéias, que tal pensar naquilo que podemos começar a fazer hoje, não só para salvar o planeta, mas para melhorarmos nossas relações humanas e tomarmos mais consciência daquilo que é também nossa responsabilidade!? Assim, ao aprendermos a nos relacionar melhor com o outro, entenderemos por quê não desperdiçar água ou abusar das sacolas plásticas, valorizar o trabalho do outro e andar mais à pé, dizer mais “bons-dias”. Tudo isso, por mais banal que pareça, tem como salvar a humanidade da extinção e garantir que as árvores continuem existindo.

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