Transubstanciação somente do Pão?

[Comentário sobre a transubstanciação da Eucaristia, na vida da comunidade, da pessoa e do mundo à nossa volta. Estudo baseado no texto do então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).]

Sacramento das transformações.

Já comentei aqui em outros artigos sobre a Eucaristia (ver menu ao lado) sobre um texto do Papa Bento XVI antes de ser eleito. Um texto bem pastoral e contagiante nas palavras de devoção e amor que ele tem por Jesus presente na Eucaristia.

Segue um trexo de um comentário que fiz sobre parte dessa intervenção do Cardeal Ratzinger num congresso eucarístico na Itália em 2002. Para ler a intervenção na íntegra, clique no link: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20020602_ratzinger-eucharistic-congress_po.html

Estamos na ultima parte do texto. Muito conciso, mas profundo em teologia e espiritualidade, introduz-nos numa percepção da grande transformação que opera em nós o celebrar e receber o Pão e o Vinho. Chama aqui a Eucaristia de “Sacramento das transformações”.

Muitas palavras das formulações teológicas de séculos perderam seu verdadeiro sentido e profundidade, não pela evolução da teologia ou de outras ciências, mas por terem caído em desuso ou por simplesmente não oferecerem mais significado claro. A grande maioria do povo nunca lançou mão de tais para explicar sua fé. Isso também aconteceu com a palavra “transubstanciação”. Mesmo os teólogos evitam seu uso e uma leitura mais superficial e descuidada pode nos levar a entendimentos equivocados. Mesmo assim, neste texto, o Cardeal Joseph Ratzinger usa-a de forma magistral. Dá a ela todo o significado de transformação que a eucaristia proporciona, indo além do Pão e do Vinho eucaristizados. Como um místico cristão dos primeiros séculos faria, dando conteúdo espiritual para as formulações teológicas.

Lendo o Cânone Romano da liturgia eucarística no momento da consagração das espécies, afirma que “O pão torna-se corpo, o seu corpo. O pão da terra torna-se o pão de Deus, o ‘maná’ do céu, com o qual Deus alimenta os homens não só na vida terrena, mas também na perspectiva da ressurreição”, ressurreição essa que já começa a acontecer naquele instante. Relembra também dois textos importantes do evangelho, onde Jesus é tentado a transformar pedras em pão (Mt 4,3-4 e Lc 4.3-4) para matar sua fome, e ainda, sendo provocado, lembra que Deus pode fazer das pedras surgir filhos de Abraão, mas prefere “transformar o pão no corpo, no seu corpo”. Jesus pode dar seu corpo como alimento no pão e no vinho, pois prefigura sua entrega definitiva na cruz. “Ele pode tornar-se dom, porque é oferecido. Através do ato da doação ele torna-se capaz de comunicação”.
Começa aqui a relatar as transformações, num total de cinco delas, onde, na última ceia acontecerão três delas num único ato que gera outras duas transformações. A transformação originante, que está antecipada na ultima ceia, é o que Jesus faz com a violência sofrida, onde ele mesmo “põe fim à violência, transformando-a em amor. O ato de morte é transformado em amor. Esta é a transformação fundamental, sobre a qual tudo se baseia”. Por esta transformação é que o mundo pode ser redimido, onde o Cristo vence todo tipo de morte, vence tudo o que gera morte – “a própria morte foi transformada”. “E assim, na transformação da ressurreição Cristo continua a subsistir, mas agora de tal forma transformado, que seu corpo e o dar-se já não se excluem, mas um implica o outro”. Agora, ao recebermos Jesus, o recebemos por inteiro, não só espiritualmente, mas na sua totalidade, também em seu corpo.

Somado a isso temos a segunda transformação, dependente total da primeira e nela contida. “O corpo mortal [de Jesus] é transformado no corpo da ressurreição: no espírito que dá vida”. Isto também é antecipado na ceia, onde num mesmo momento Jesus morre na cruz e se é ressuscitado. Toda esta transformação é vivida na ceia e na entrega de Jesus. Daqui passamos para a terceira transformação que diz respeito ao Pão e o Vinho. Neles será contida toda a transformação e ação do Cristo Jesus. Estes são transformados de tal maneira que “está presente o próprio Senhor que se dá, a sua oferenda, ele mesmo porque ele é dom. O ato da doação não é algo dele, mas é ele próprio”. Pão e Vinho são transformados na presença do próprio Senhor.
Chega-se às duas ultimas transformações provenientes do que acabamos de ver. Jesus se faz presente no Pão e no Vinho com uma finalidade clara que é transformar o homem num só corpo com ele:

“Para que nos tornemos um só pão com ele e depois um só corpo com ele. A
transformação dos dons, que é unicamente a continuidade das transformações
fundamentais da cruz e da ressurreição, não é o ponto final, mas, por sua vez,
só um início. O fim da Eucaristia é a transformação de quantos a recebem na
autêntica comunhão com a sua transformação”.

E assim, “nos tornamos com Cristo e em Cristo um organismo de doação, a fim de vivermos com vista à ressurreição e ao novo mundo”. Este é o passo a ser dado para a quinta e ultima transformação. Toda a criação é participante deste evento em nós e por nós homens. A Criação também é transformada para tornar-se “habitação viva de Deus”.

Por estes passos aprofundamos no sentido da real transubstanciação que vai muito além da discussão do que acontece com as espécies eucarísticas. A totalidade da presença de Jesus não pode ser contida ou limitada pelo pão e pelo vinho, mas deve transbordar em nós que o recebemos e dele nos alimentamos. Pois não basta fazer-se presente sob o véu da aparência de pão e vinho se não promover transformações definitivas em nós homens. É preciso ir e comer, receber e beber de seu corpo, provar da transformação.
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